Terça-feira, 13 de outubro de 2026 · Serra, ES Anuncie  ·  Canal WhatsApp
SERRA EM FOCONOTÍCIAS DA SERRA

Início / Colunas / Davidson Calebe | Terapeuta

Segurança jurídica começa com bom senso

QUEM COMPARTILHA, TAMBÉM RESPONDE

Vou te mostrar como não ser manipulado pela próxima notícia que chegar ao seu celular, e porque a decisão é sempre sua.

Davidson Calebe | Terapeuta · Publicada em 07/10/2026, 21:35
Eduardo Santos, apresentador do ES no Ar
Há alguns anos, o apresentador Eduardo Santos teve de abaixar o tom com seu famoso bordão sobre os meliantes. Ele gritava “BAN-DÍ-DO!” e divertia todos nós. Os telejornais policiais capixabas, incluindo o ES no Ar, já foram criticados porque seus apresentadores se referiam aos criminosos como “bandidos” e “vagabundos”, muitas vezes aos berros. · Foto: Instagram Eduardo Santos

Quando estamos na internet compartilhando notícias sobre política, crimes ou injustiças que chegaram até nós através da mídia, muitas vezes destilamos ódio sem medir a proporção e, principalmente, as consequências das nossas próprias palavras. Em raríssimos casos, quando alguém que sofreu uma falsa acusação passa por um assassinato de reputação, uma agressão física ou algo ainda pior, muitas vezes já é tarde demais e não há mais nada a ser feito. O motivo disso é que a fronteira — ou a distância — que existia entre o momento em que um pensamento passa pela nossa cabeça e o momento em que, através das palavras, ele sai pela nossa boca foi absurdamente encurtada pela “proteção” que o ambiente digital aparentemente nos proporciona.

“Certa vez, um grande amigo meu, da época em que trabalhava na indústria, me contou sobre um triste acontecimento da sua história: ele havia sido acusado de assédio sexual pela própria cunhada.” Eu perguntei a ele como aquela história, tão antiga, havia se desenrolado e no que tinha dado no final das contas; se ele havia conseguido provar sua inocência ou não. Ele me disse algo muito preocupante: “Meu amigo, nessa vida, se você é acusado de coisas como assédio sexual, furto ou roubo, apenas uma coisa é certa: sendo culpado ou não, você acabará pagando o preço da mesma maneira.”

Talvez a solução para essa brecha seja muito mais simples do que parece: aprendermos a separar fato, acusação e julgamento. Se alguém foi acusado, podemos dizer que foi acusado. Se existem provas, podemos falar sobre as provas. Se houve condenação, podemos falar sobre a condenação. Hoje existem regulamentações, direitos e deveres para praticamente todas as interações que acontecem na sociedade, seja no mundo real, seja no virtual. E o risco de estarmos nos expondo e abrindo brechas para que nós mesmos tenhamos essa liberdade retirada de nós, pelo mau uso que fazemos dela, é gigantesco.

CONDENAÇÃO PÚBLICA

É dessa maneira que muitos entrevistadores de rua conseguem pegar as pessoas com notícias invertidas. “Você ficou sabendo que o candidato 'A' gastou R$ 200 mil da verba pública com isso ou aquilo?” Quando aquela pessoa reage negativamente, então um entrevistador malandro revela que a notícia, na verdade, era sobre o candidato daquela mesma pessoa. E pronto: em poucos segundos, alguém pode ser levado a condenar aquilo que, minutos antes, talvez estivesse defendendo. Quem fez algo parecido — e ficou muito conhecido por isso — foi o profeta Natã, na Bíblia. Ele levou o rei Davi a condenar o próprio pecado antes de perceber que a história que julgava era, na verdade, sobre ele mesmo. Um pecado que Davi havia mantido encoberto por pelo menos um ano.

Um dos nossos poucos filósofos brasileiros contemporâneos afirmou certa vez que "o povo brasileiro é especialista em dar opiniões sobre aquilo que não entende absolutamente nada". O risco de estarmos reagindo passivamente a tudo que chega até nós — muitas vezes fatos extremamente irrelevantes para a nossa própria realidade cotidiana — é imenso. Precisamos pensar e pesar, na nossa própria balança, se temos tempo e conhecimento suficientes para dedicar àquele assunto. E, de maneira mais prática, tomar certos cuidados para que não venhamos a ser guiados por discussões sem fim, nem tenhamos nossa opinião formada por terceiros mal-intencionados.

Ainda assim, eu continuo gostando muito de uma provocação que vi alguns anos atrás: “Liberdade é poder ofender as pessoas.”

Antes de compartilhar, julgar ou condenar, pare e verifique se você está reagindo somente aos fatos ou se está aderindo à interpretação de alguém.